THE END.


Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela - Albert Camus


Madalena Pestana
at domaine-de-loisy
Steve Tregeagle*
Fim do conto : A quatro mãos
enquanto isso, lá fora , sara espreitou a janela e viu o que entendeu como sinal: um gato e um piano.
o seu gato arranhava-lhe os pés, pedindo que saísse da posição de estátua em que ficara. mas não foi ela quem saiu, foi um vento forte, uma interior rajada que a atirou pelo espaço, ave em voo, fazendo-a flutuar o que faltava vencer até à casa, onde o que fora um amor, a aguardava
by Victor Ivanovski
o céu avermelhara com as cores de uma paixão que o ar trazia e sara reconhecia por tê-la sentido, muito nova ainda, uma vez só.
não voltara a ver o homem que a desencadeara. um dia despertou e ele tinha deixado a paróquia onde ajudava o padre. não voltaria. sara refugiou-se no piano e não voltou a olhar rapaz nenhum.
- não, não pode ser. enlouqueci.
o homem olhou através da janela e o estremecimento passou a uma comoção inesperada. não queria, melhor não podia acreditar no que a vida, imperturbável fábrica de destinos. tinha voltado a pôr no seu percurso: a menina-mulher.
Marc Atkins
os olhos pejados de ternura recusavam desviar-se da aparição.
Marc Atkins - não, não pode ser ela. é a minha fantasia a recriá-la. é já o pôr de sol que se aproxima. são as manchas das folhas de árvore sobre o rosto.
ela era quase uma menina quando a ouvi tocar...que poderia fazer hoje aqui, neste quase fim de mundo, onde só eu e a minha mãe vivemos para além dos pastores?
adam-burtonenquanto isso, sara olhava a casa, temente da reacção do dono se, sem mais nem menos, lhe invadisse a privacidade e o óbvio exílio.
mas tinha de encontar uma saída. parou para pensar numa abordagem, um pretexto que a levasse a bater à porta e não perguntar de imediacto:
- é você o pianista?
a frase não cairia nada bem como apresentação.
o primeiro pastor que encontrou, perguntou por alguma casa próxima. disse-lhe o homem:
- só conheço a do artista, por aqui além de pastores não mora mais ninguém.
- que arte é a dele?
- ao que dizem, todas, vem daí a alcunha. pinta, toca, até a própria casa construiu.
- e vive há muito tempo por aqui?
- não sei o tempo exacto, mas a casa foi feita depois da casa grande, isso posso eu garantir, ainda ajudei a trazer o material. pagavam bem...
mas procura-o para quê? desculpe o abuso?
- ele afina pianos? sabe dizer-me isso?
- só o da casa grande. de resto vai dar aulas de música à cidade, dois dias por semana. só nesses dias ele sai.
é estranho. homem ainda novo mas de semblante triste e nada dado a falar com ninguém. vive escondido como os lobos vivem, com medo de um qualquer caçador.
kenket.com
- desculpe-se, já falei demais.
e foi-se o pastor.
sara ficou mais triste. parecia distanciar-se a sua esperança tão fisicamente próxima, de voltar a tocar.
- 'vive escondido como os lobos vivem', disse ele... porque iria querer sequer abrir-me a porta?
nesse momento e não longe dali, um homem estremeceu, como acometido por dor acutilante. sem saber vinda de onde, sem entender sequer.
by Victor Ivanovski.
pascal renoux - sara, que digo se o mordomo te chama? não podemos sair assim, ele não gosta...
- também não gosto dele e aguento. diz-lhe que não me viste. depois eu própria responderei ao que quiser.
lá fora respirou fundo e correu solta. pisava com prazer as folhas mortas enquanto parecia renascer.
jody fenton - escada não pisada como teclas paradas. há que subi-la. nalgum canto vive o pianista que ouvi no primeiro dia.
que se dane o segredo seja ele qual for!
eu preciso encontrá-lo, tenho urgência em voltar a tocar.
subiu a escada para encontrar a vida, que parecida adormecida, na casa que lhe ficava para trás.
by Victor Ivanovski.
mas nunca nada se parecera aos sons daquele dia.
deixariam que usasse o piano?
absorta, mal deu por baterem na porta. disse um sim automático e pasmou. mordomos, só os vira nos filmes e nunca por ali. no entanto estava certa de que o homem que acabara de entrar pelo porte e traje, o era concerteza
- sara, decidiu a senhora contratar-te para que lhe faças companhia. lerás para ela e sairás sempre que se sinta capaz de passear.
de uma coisa quero advertir-te já, não lhe faças perguntas pessoais, não as tolera.
- e a si, posso?
- diz.
- poderei usar, de vez em quando, o piano?
- está fora de questão. ninguém o toca. ninguém. há muito tempo...
saiu. sara não sabia o que sentir. raiva, mágoa, frustração ou tudo isso?
- raio de boneco articulado! eu hei-de conseguir!
steve garfield.
em casa da mãe havia no sótão um piano estragado. muito pequena ainda, escapava-se para ficar a olhá-lo apenas. a mãe nunca gostara que o fizesse e um dia fechou à chave o sótão e proibiu que fizesse mais perguntas sobre o assunto. nunca entendeu aquele comportamento, nem agora, crescida já. o entendia.
- tinhas tantos mistérios porquê, mãe? o piano, o meu pai, o homem que ia e vinha mas com quem não vivias, a cultura que tinhas apesar do trabalho tão humilde...
segredos. só segredos!
e levaste-os contigo ao deixar-me só. abandonaste-me sem história. não perdoo! tenho raiva aos teus silêncios que me cercaram a vida, que eu queria tão cheia de sons!
pascal renoux
e pela primeira vez depois da morte da mãe, soltou um grito de dor. grito de animal ferido. grito de entranhas rasgadas.
tanta impotência e agora, mais silêncio numa casa estranha, onde ninguém parecia querer saber de onde ou porque viera ela, sequer.
desce em busca do riacho , molha-se em água benta de chuva. já não pisa as folhas, elas dançam no ar como ela dança.
pascal renoux.
súbito a vertigem. o céu muda de tom. esbatem-se as formas e a rapariga cai no chão, molhado ainda.
tony howell.
deu consigo a sorrir, ou nem por isso deu, mas um sorriso inundou a manhã, já de si cheia da luz que brilhava na água, ainda gotejante das folhas das árvores.
não posso ir já para lá. para esta gente é madrugada ainda. haverá por aqui que comer? bagas há, já as vi. sei quais as venenosas, tudo o resto dá para comer, se os animais as comem...
as bagas mordiscou-as, arrepiando-se com a acidez, mas acabaram por saber-lhe a fruta requintada.
sentada no chão, escutando a água que corria, não conseguiu impedir que o sonho da noite lhe viesse à memória. não fora o sonho recorrente. não o olho de bicho, a que quase se acostumara.
foi diferente; uma raiz esbatida num chão de pele, em forma de rosto de homem, que parecia querer falar-lhe. a quem teriam cerrado a boca a impedi-lo mas, parecia ter nascido para falar-lhe, só. tinha a sensação, estranha, de ter visto algures um rosto assim.
se ao menos soubesse entender sonhos...
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fritz faberto despertar confirmou que chovera. ouvia-se ainda os pingos da chuva da noite a caírem dos ramos. ela sorriu. o som da chuva era música pura. o vento sobre as árvores criava sinfonias que ela, um dia, haveria de tocar.o gato no seu canto não estaria tão feliz. molhar-se não era festa para ele.
sobi.org
não iria voltar ao cemitério. nunca mais. preferia-a viva na memória. sem lápides nem cercas que a fechassem. foi buscar uma pedra para assinalar o lugar onde nascera, para a mãe, aquela flor. lá, voltaria.
era uma pedra branca, redonda quase, não a esqueceria .
reiniciou a caminhada. era ainda longe. não pensava em bater à casa grande noite dentro. perguntou qual o caminho a um ciclista que passou e saiu da estrada, em procura de lugar para dormir. estava muito cansada.
triste? não tinha tempo para sentir. tinha o futuro próximo com que se ocupar. e os sonhos no piano que um dia poderia tocar.
at .neara.org
by Darren Levant os baloiços, a descontracção, quando a morte desce para a colheita e nos leva a árvore de apoio! também o verão ficara para trás.
nada na vida é estático. sabia isso a cada momento mais. crescia, sem saber, a cada passo dado.
- o dinheiro não pode durar muito. tenho de ir para bem longe da cidade ou terei de aturar o convento e sei eu lá que mais. não podem encontrar-me! arranjar um trabalho onde puder parar é o mais importante, no momento.
tenho de comer. desde ontem que o não faço e a andar a este ritmo começo a ficar tonta. aimda bem que é outono. com o calor. ainda estaria à saída do povoado.
parou num café de estrada onde a não conheciam e entrou.
Rob Ball
bebeu café com leite comeu pastéis e comprou água e pão para o caminho. tudo de uma forma apressada que fez estranhar o dono.
- estás com pressa? vais para a camioneta?
- vou. tenho de procurar trabalho na cidade mais próxima. sabe de alguma coisa?
- és maior de idade?
- olhe para mim. pareço-lhe criança? e se o fosse havia de querer trabalhar para comer?
- tens razão. dizem que na casa grande procuram pessoal. fica a uns quilómetros da paragem. terias de ir a pé. é gente rica. quase tudo mulheres. mas como é longe, pouca gente casada as quer servir.
- eu não sou esquisita, casada muito menos e tenho boas pernas para andar. obrigada. bom dia.
e saiu.
José Marafona- a casa grande. assusta só o nome.
e pôs-se a imaginar, enquanto passava ao lado da paragem, para não ser apanhada no transporte público.
- vais ter de aprender a caçar, óscar! enquanto eu trabalho entre ratos e baratas, dormes tu. depois ficas de sentinela ou eu não durmo. tenho de ganhar para poder ser pianista, não te esqueças.
by knuthaug dizia para o gato, vendo-o como forte guarda dos seus medos e o animal parecia escutar.
(cont.)
não podia. mas não ficaria no orfanato do mosteiro. faltava-lhe apenas um ano para poder decidir da sua vida. decidiria já. não podia sequer imaginar-se nos corredores gelados entre mulheres de negro. rezando, por obrigação, sem sequer entender o que dizia.
e ainda que naquele momento os sonhos de jovem estivessem de luto, a consciência não a perdera ainda.
Spirospar
disse não ao convite do homem para o seguir. não se dava conta bem do que sentia. vazio? seria isso?
a raiva entrou-lhe no sangue ao ver o que restara da casa. apenas a cama pobre e o gato esquecido porque sem valor. tinham levado tudo, como corvos. não teve forças para odiar.
pegou o animal que parecia implorar que o não abandonasse. pô-lo na mochila sobre a pouca roupa que era a sua. foi ao esconderijo buscar o dinheiro que a mãe amealhara sabe-se lá como e partiu. sem rumo. era urgente sair antes da chegada das freiras. isso era, de momento, tudo quanto sabia.
foi-se por um caminho solitário até que os sonhos voltassem a fluir.
(cont.)

nunca vira flores em casa antes da mãe morrer. pensou isso e sorriu, com ironia.
- eu hei-de tê-las antes, muitas!
- vou tomar um banho. vim sem passar por casa. se quiseres, depois jogamos cartas. vai ser uma noite longa de passar...
- não.
- como queiras. vai fazer café, então.
e não voltaram a falar até amanhecer.
suspended time
enroscou-se aos pés da cama da mãe, com muito medo de dormir, para não sonhar.
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(cont.)

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havia ainda o "olho de bicho" como ela lhe chamava. começava por fazer parte de um rosto até se aproximar tanto, que já só via a pigmentação do olho a fremir dentro da sua cabeça de criança.

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não, de nada serviria chamar. a mãe ia, madrugada ainda vender no mercado da cidade. era longe, saía noite. pai? o pai era um místério e ninguém falava dele.
havia só um homem, sempre o mesmo, que às vezes lá dormia e levava chocolates e beliscava a mãe. nesses dias o jantar era melhor. pouco falava mas, sorria-lhe sempre. outras vezes aparecia mas ficava pouco tempo.

Steven Daniel
quando ele chegava, deixavam que ela fosse para a rua, empoleirar-se onde queria, como os rapazes. gostava mais disso que dos chocolates. depois o homem voltava a sair e a mãe chamava-a para jantar.
assim passara a infância. entre a escola, a rua e a solidão dos sonhos pesadelo.
(cont.)
Gabriel Rigon
era a manhã do início ou assim parecia.
mas a mulher desprendeu-se do abraço.
aonde vais? não me fujas de novo, por favor! eu errei mas busquei-te todo o tempo. e tu própria semeaste o anel e as penas de garça pelo caminho: querias que te encontrasse. aonde vais?
a mulher entrou numa cabana, que ele nem tinha visto no escuro da subida e saiu dela apressada, trazendo algo nos braços. a luz era pouca ainda.
estendeu-lhe o que carregava com carinho.
toma, foi por ele que vim. não seria complecta se o não tivesse. se não quiseres eu e ele viveremos aqui.
sorria com orgulho de fêmea conseguida.
o homem, viu no colo um filho. seu! inundou-o um sentimento forte, inédito. sentiu-se rei daquele mundo em volta, e amou-o desde o instante em que o sentiu.
john running e por fim, a montanha dourou-se com o sol.
alan and sandy carey
parecia primavera. havia paz no mundo a essa hora. nem os lobos se ouviam. só o murmúrio da água do rio, fertilizando tudo à sua volta.
como um qualquer deus quis e, conseguiu.
rio Walyunga----------------- //-----------------
Fim do conto "Um Homem o Rio e os Lobos" dedicado a
H.C. Mueller de véspera caíra no sono como pedra num poço.
despertou leve, quase feliz. correria à nascente. sentia-se como adão em paraíso. a natureza agreste, de altitude talvez se impusesse ao seu fardo de civilizado. fosse pelo que fosse, era livre e homem o que se sentia.
deixou para trás a mochila e tudo o mais, subiu a correr os metros que faltavam e por fim chegou à nascente almejada.
Mike Wolfdo outro lado um pouco mais abaixo, uma mulher. está sentada numa rocha. como se fizesse parte da paisagem . o coração do homem alvoroça. bate arritmado, como o de uma dolescente na primeira paixão.
não pode ser! seria bom demais...
meu amor!?
a mulher olha-o, ergue-se e por fim, a manhã decide despertar.

acima, pouco acima, uma figura dobrada sobre a água parecia realizar, como os lobos, um rictual, contemplando o reflexo da lua na límpidez do rio.
o homem não poderia tê-la visto ao chegar. tê-lo-ia ela ouvido? não parecia, de tão concentrada num dobrar, quase triste, sobre a corrente.
lua de lobos é uma lua difícil para adormecer.