11/25/2005

THE END.


Sem qualquer intenção de regressar aos blogs, despeço-me de todos com carinho.

O mundo está sempre em mudança e o meu mundo não é nisso excepção.

Continuarei, sempre que possa, a visitar quem costumava.

Para escrever, se me fizer muita falta mesmo, voltarei aos blocos quadriculados de sempre.

Até breve.

Madalena.

11/23/2005

racionalizando

by Inge Weidmann

Do not grieve. Misfortunes will happen to the wisest and best of men. Death will come, always out of season. It is the command of the Great Spirit, and all nations and people must obey. What is past and what cannot be prevented should not be grieved for ... Misfortunes do not flourish particularly in our lives - they grow everywhere.


Big Elk - Omaha Chief

Até já Isabel. Obrigada por teres existido.

Isabel de Castro - Actriz

Vais encontrar o Nuno primeiro que eu. Como ele te admirava! Quero tanto acreditar que vai ser como eles dizem.

Foi uma honra e um prazer enorme conhecer-te e aprender contigo.

Madalena Pestana



porque me foi oferecido

e por ainda ser novembro e estas serem, de facto, as minhas cores. porque quero escrever mas ainda é cedo e porque a vida nao é negra sempre:


aqui fica, com um obrigado ao

11/22/2005

um silêncio

o gato olha atento o movimento novo.

era muita a agitação na casa estagnada até aí.

o mordomo dera pela falta de sara e conseguira da pequena empregada, a informação do que buscava ela ao partir.


at domaine-de-loisy

ao saber isso, a senhora sorriu. destinou o jantar. o mordomo não entendeu, pela primeira vez, a ordem recebida.

- ouviste bem, é para três, o jantar.
vem celebrar comigo, serve um vinho bom . esta noite, o piano vai voltar a tocar.

Steve Tregeagle

*

Fim do conto : A quatro mãos

a porta já aberta. e descrever o abraço?

francis bake


quem sabe alguma coisa do intemporal, do para lá dos corpos e das almas, da inversão da vida, do vê-la até pelo avesso, do redemoínho de ramo de árvore ao vento, a encontrar de novo o tronco mãe?

inenarrável pois o reencontro. silencioso, intenso, casto até. como se resultasse de espera milenar.

- para onde fugiste tu, porquê?

- foste tu quem partiu sem avisar e ... havia a igreja pelo meio.

- saí a tempo de me libertar de votos feitos. o meu voto eras tu.

- não o disseste.

- não o adivinhaste?

- ó meu amor, não sei!

- e como estás aqui?

- trabalho na casa grande. no primeiro dia ouvi tocar... hoje não resisti, vim procurar o artista.

- desde que voltei à cidade e não te vi, saí dessa casa e a minha mãe ficou triste e fechou-se também.
se eu soubesse...


mais palavras não houve. apenas teclas, teclas tocadas a quatro mãos imparáveis, ansiosas de produzir a mais maravilhosa música do mundo.

Mik Hartmann

- ela não veio por mim, não me sabia aqui.

sentou-se no soalho de madeira brilhante. sim , fizera ele a casa com alguma ajuda. as suas mãos sabiam mais do que tocar teclas, roubando sons a cordas.

Jonathan Cox

enquanto isso, lá fora , sara espreitou a janela e viu o que entendeu como sinal: um gato e um piano.

Dave Beedon

o seu gato arranhava-lhe os pés, pedindo que saísse da posição de estátua em que ficara. mas não foi ela quem saiu, foi um vento forte, uma interior rajada que a atirou pelo espaço, ave em voo, fazendo-a flutuar o que faltava vencer até à casa, onde o que fora um amor, a aguardava

by Victor Ivanovski

11/21/2005

sara foi acometida por uma energia

panoptika


estranha a si, que a envolvia e a puxava, como os tentáculos de um polvo fazem, provavelmente. foi pelo menos nisso que pensou.

- é da trovoada , tem de ser. vê-se bem já nas cores do céu, que se aproxima uma.

nenhum ser inanimado, como um piano, pode desenvolver a força que me atrai. sei disso. porque será então que tremo. de que é que tenho medo, se até é boa e envolvente a sensação?

Marc Atkins

a árvore frente à casa era o porto seguro que restava, para resistir à tentação de seguir a correr na direcção do que a chamava. parte de si recebia da árvore a força necessária para escolher, a outra parte corria já na direcção do chamado inaudível.

foto ognid - Catedra l


o céu avermelhara com as cores de uma paixão que o ar trazia e sara reconhecia por tê-la sentido, muito nova ainda, uma vez só.

não voltara a ver o homem que a desencadeara. um dia despertou e ele tinha deixado a paróquia onde ajudava o padre. não voltaria. sara refugiou-se no piano e não voltou a olhar rapaz nenhum.

- não, não pode ser. enlouqueci.

11/20/2005

- quem se atreveu a atrevessar o rio, em sofrimento

de ave que perde as penas ao não poder voar?

kadian

o homem olhou através da janela e o estremecimento passou a uma comoção inesperada. não queria, melhor não podia acreditar no que a vida, imperturbável fábrica de destinos. tinha voltado a pôr no seu percurso: a menina-mulher.

Marc Atkins


os olhos pejados de ternura recusavam desviar-se da aparição.


Marc Atkins

- não, não pode ser ela. é a minha fantasia a recriá-la. é já o pôr de sol que se aproxima. são as manchas das folhas de árvore sobre o rosto.

ela era quase uma menina quando a ouvi tocar...que poderia fazer hoje aqui, neste quase fim de mundo, onde só eu e a minha mãe vivemos para além dos pastores?

adam-burton

enquanto isso, sara olhava a casa, temente da reacção do dono se, sem mais nem menos, lhe invadisse a privacidade e o óbvio exílio.

mas tinha de encontar uma saída. parou para pensar numa abordagem, um pretexto que a levasse a bater à porta e não perguntar de imediacto:

- é você o pianista?

a frase não cairia nada bem como apresentação.

11/18/2005

aberta a jaula como piano aberto

sara passou a dedilhar em cada corda os sons da vida.


Edu - ejhuang


o primeiro pastor que encontrou, perguntou por alguma casa próxima. disse-lhe o homem:

- só conheço a do artista, por aqui além de pastores não mora mais ninguém.

- que arte é a dele?

- ao que dizem, todas, vem daí a alcunha. pinta, toca, até a própria casa construiu.

- e vive há muito tempo por aqui?

- não sei o tempo exacto, mas a casa foi feita depois da casa grande, isso posso eu garantir, ainda ajudei a trazer o material. pagavam bem...
mas procura-o para quê? desculpe o abuso?

- ele afina pianos? sabe dizer-me isso?

- só o da casa grande. de resto vai dar aulas de música à cidade, dois dias por semana. só nesses dias ele sai.
é estranho. homem ainda novo mas de semblante triste e nada dado a falar com ninguém. vive escondido como os lobos vivem, com medo de um qualquer caçador.


kenket.com


- desculpe-se, já falei demais.

e foi-se o pastor.

sara ficou mais triste. parecia distanciar-se a sua esperança tão fisicamente próxima, de voltar a tocar.

- 'vive escondido como os lobos vivem', disse ele... porque iria querer sequer abrir-me a porta?

nesse momento e não longe dali, um homem estremeceu, como acometido por dor acutilante. sem saber vinda de onde, sem entender sequer.


by Victor Ivanovski.

11/16/2005

alguém lera para a dona da casa grande antes de sara

Marlon Weston

pois, tal como o piano que nunca tocava, os objectos e a história daquela casa estavam emoldurados e suspensos no tempo.

sara sabia não querer fazer parte da moldura. tinha de ouvir a música das cores de outono, dos riachos, da chuva e uma tarde, para espanto da filha do jardineiro, saiu portão afora sem avisar ninguém.

pascal renoux

- sara, que digo se o mordomo te chama? não podemos sair assim, ele não gosta...

- também não gosto dele e aguento. diz-lhe que não me viste. depois eu própria responderei ao que quiser.

lá fora respirou fundo e correu solta. pisava com prazer as folhas mortas enquanto parecia renascer.


jody fenton

- escada não pisada como teclas paradas. há que subi-la. nalgum canto vive o pianista que ouvi no primeiro dia.

que se dane o segredo seja ele qual for!

eu preciso encontrá-lo, tenho urgência em voltar a tocar.

subiu a escada para encontrar a vida, que parecida adormecida, na casa que lhe ficava para trás.

11/14/2005

calou-se por fim sacudida pelo próprio grito.

tanta memória a tinha assombrado pelo som do piano.

aprendera a tocar na cidade. muito contra a vontade da mãe. com uma professora que fora concertista ou dizia ter sido.
depois ia à igreja só para entrar na sacristia e usar o piano. o padre não tocava e lá ia deixando para a poder ouvir. assim fora feliz de modesta maneira.

by Victor Ivanovski.

mas nunca nada se parecera aos sons daquele dia.

deixariam que usasse o piano?

absorta, mal deu por baterem na porta. disse um sim automático e pasmou. mordomos, só os vira nos filmes e nunca por ali. no entanto estava certa de que o homem que acabara de entrar pelo porte e traje, o era concerteza

- sara, decidiu a senhora contratar-te para que lhe faças companhia. lerás para ela e sairás sempre que se sinta capaz de passear.

de uma coisa quero advertir-te já, não lhe faças perguntas pessoais, não as tolera.

- e a si, posso?

- diz.

- poderei usar, de vez em quando, o piano?

- está fora de questão. ninguém o toca. ninguém. há muito tempo...


saiu. sara não sabia o que sentir. raiva, mágoa, frustração ou tudo isso?

at buckinghamgate.com

- raio de boneco articulado! eu hei-de conseguir!

a jovem fechou os olhos

aos primeiros acordes estranhou a qualidade musical do afinador de pianos. a música subia com uma alma própria e sara elevava-se com ela, inebriada.

quando se apercebeu de que esquecera a futura patroa, abriu os olhos, mas a senhora já não estava no quarto. preocupou-se. correu à escada para ver se a via. nada. já nem o piano se ouvia. um silêncio de pedra numa casa de pedra. só lá fora parecia ainda haver vida.

steve garfield.


em casa da mãe havia no sótão um piano estragado. muito pequena ainda, escapava-se para ficar a olhá-lo apenas. a mãe nunca gostara que o fizesse e um dia fechou à chave o sótão e proibiu que fizesse mais perguntas sobre o assunto. nunca entendeu aquele comportamento, nem agora, crescida já. o entendia.

Will Agar

- tinhas tantos mistérios porquê, mãe? o piano, o meu pai, o homem que ia e vinha mas com quem não vivias, a cultura que tinhas apesar do trabalho tão humilde...

segredos. só segredos!
e levaste-os contigo ao deixar-me só. abandonaste-me sem história. não perdoo! tenho raiva aos teus silêncios que me cercaram a vida, que eu queria tão cheia de sons!


pascal renoux


e pela primeira vez depois da morte da mãe, soltou um grito de dor. grito de animal ferido. grito de entranhas rasgadas.

tanta impotência e agora, mais silêncio numa casa estranha, onde ninguém parecia querer saber de onde ou porque viera ela, sequer.

11/10/2005

despertou numa cama estranha. insegura. confusa.

josé marafona

soube depois que a tinham encontrado sem sentidos. na terra. o gato miando junto dela. fora aliás o miar do gato a alertar para o lugar o jardineiro que passava.
a senhora ordenou que a levassem para a casa grande e a alimentasssem depois de um banho quente e, assim fizeram.

comeu em silêncio, como quem pecasse por perder o controle da mente e demonstrar fraqueza no lugar onde queria causar boa impressão.

depois esperou.

começava a conhecer o significado da espera. é uma angústia quase, que não morre, porque tem uma espécie de fé agarrada como uma trela a uma coleira. como uma nora ao animal que a puxa.

por fim viu no espelho do quarto o rosto calmo da dona da casa e respirou, como quem tivesse sustido o fôlego por muito tempo.

Schildt

- bom dia.como te chamas, rapariga?

- sara, senhora.

- sara...

pareceu-lhe ver a velha senhora estremecer. seria por certo ilusão dos seus olhos cansados do pouco sono, do sofrimento da véspera. seria...

ouviu acordes de uma piano e levantou-se quase de um salto, despertando a provável patroa do torpor em que parecia ter entrado.

- que foi? sentes-te mal?

- não. desculpe, é um piano não é?

- é sim, estão a afiná-lo. gostas de pianos?

- tanto! daria a vida por um.

david

- sara...

ficou a idosa senhora murmurando, como um eco.

11/09/2005

por hoje ser... hoje


vinte e quatro horas de intervalo.

11/08/2005

é visível a cerca de entrada da casa grande.


Donna Sherwood

mas ela, Sara, não tem pressa agora. quer respirar todos os sons novos, o ar lavado.

não referira o nome? é Sara sim. era o nome da avó, a mãe do pai. o pai mistério, o pai escondido, tapado por invernos de folhas apodrecidas na memória dos que o quiseram ignorado de vez.

mas Sara não pensa em nada. pisa folhas e sons, os sons que cada cor tem no seu espírito, na sua carne, no seu sangue. são os sons do outono.

James Kay


desce em busca do riacho , molha-se em água benta de chuva. já não pisa as folhas, elas dançam no ar como ela dança.

pascal renoux.


súbito a vertigem. o céu muda de tom. esbatem-se as formas e a rapariga cai no chão, molhado ainda.

tony howell.

11/07/2005

há um rio por perto

mas ontem nem o escutei correr, talvez um riacho a que a chuva da noite deu caudal maior. é tão bom ter um rio junto de casa! que sorte têm os ricos, podem escolher onde morar.
ter esta voz de água a entrar nos ouvidos logo ao despertar... feliz de mim se conseguir emprego aqui.


philippe.poli

deu consigo a sorrir, ou nem por isso deu, mas um sorriso inundou a manhã, já de si cheia da luz que brilhava na água, ainda gotejante das folhas das árvores.

Dave

não posso ir já para lá. para esta gente é madrugada ainda. haverá por aqui que comer? bagas há, já as vi. sei quais as venenosas, tudo o resto dá para comer, se os animais as comem...

as bagas mordiscou-as, arrepiando-se com a acidez, mas acabaram por saber-lhe a fruta requintada.


by kim tran

sentada no chão, escutando a água que corria, não conseguiu impedir que o sonho da noite lhe viesse à memória. não fora o sonho recorrente. não o olho de bicho, a que quase se acostumara.

foi diferente; uma raiz esbatida num chão de pele, em forma de rosto de homem, que parecia querer falar-lhe. a quem teriam cerrado a boca a impedi-lo mas, parecia ter nascido para falar-lhe, só. tinha a sensação, estranha, de ter visto algures um rosto assim.

se ao menos soubesse entender sonhos...

Wallpapers Skins

antes de adormecer

olhou a cor das folhas de outono que o vento atirara para o chão do quarto de pedras velhas. não podia ser pior que o que deixara para trás depois do saque. o gato arranjou o seu canto também, em posição de alerta.
a noite ameaçava chuva. ali se aconchegaram, até o sono lhes fechar os olhos. mas os sonhos...

fritz fabert

o despertar confirmou que chovera. ouvia-se ainda os pingos da chuva da noite a caírem dos ramos. ela sorriu. o som da chuva era música pura. o vento sobre as árvores criava sinfonias que ela, um dia, haveria de tocar.o gato no seu canto não estaria tão feliz. molhar-se não era festa para ele.

sobi.org

11/04/2005

uma flor no caminho. pensou na mãe.

L. Morgan

não iria voltar ao cemitério. nunca mais. preferia-a viva na memória. sem lápides nem cercas que a fechassem. foi buscar uma pedra para assinalar o lugar onde nascera, para a mãe, aquela flor. lá, voltaria.

era uma pedra branca, redonda quase, não a esqueceria .

reiniciou a caminhada. era ainda longe. não pensava em bater à casa grande noite dentro. perguntou qual o caminho a um ciclista que passou e saiu da estrada, em procura de lugar para dormir. estava muito cansada.

triste? não tinha tempo para sentir. tinha o futuro próximo com que se ocupar. e os sonhos no piano que um dia poderia tocar.


at .neara.org

uma casa de pedra! quem a teria feito? entrou. a história podia bem esperar. antes o pouco aconchego das folhas de outono e a pedra em volta, que o frio da noite que sentia já.

- se me deixarem estudar... se tiver tempo... posso aprender música. pago com o que ganhar...

a música vivia dentro do seu cérebro. brotava como água desde a manhã até o sono a vencer.

by Darren Levant

adormeceu enfim. há 24 horas não dormia, iluminava a noite, o olhar atento de óscar, o gato que um dia achara abandonado num jardim.
(cont.)

11/01/2005

que depressa ficam para trás

Larry Kanfer

os baloiços, a descontracção, quando a morte desce para a colheita e nos leva a árvore de apoio! também o verão ficara para trás.

nada na vida é estático. sabia isso a cada momento mais. crescia, sem saber, a cada passo dado.

- o dinheiro não pode durar muito. tenho de ir para bem longe da cidade ou terei de aturar o convento e sei eu lá que mais. não podem encontrar-me! arranjar um trabalho onde puder parar é o mais importante, no momento.

tenho de comer. desde ontem que o não faço e a andar a este ritmo começo a ficar tonta. aimda bem que é outono. com o calor. ainda estaria à saída do povoado.

parou num café de estrada onde a não conheciam e entrou.


Rob Ball

bebeu café com leite comeu pastéis e comprou água e pão para o caminho. tudo de uma forma apressada que fez estranhar o dono.

- estás com pressa? vais para a camioneta?

- vou. tenho de procurar trabalho na cidade mais próxima. sabe de alguma coisa?

- és maior de idade?

- olhe para mim. pareço-lhe criança? e se o fosse havia de querer trabalhar para comer?

- tens razão. dizem que na casa grande procuram pessoal. fica a uns quilómetros da paragem. terias de ir a pé. é gente rica. quase tudo mulheres. mas como é longe, pouca gente casada as quer servir.

- eu não sou esquisita, casada muito menos e tenho boas pernas para andar. obrigada. bom dia.

e saiu.

José Marafona

- a casa grande. assusta só o nome.

e pôs-se a imaginar, enquanto passava ao lado da paragem, para não ser apanhada no transporte público.

- vais ter de aprender a caçar, óscar! enquanto eu trabalho entre ratos e baratas, dormes tu. depois ficas de sentinela ou eu não durmo. tenho de ganhar para poder ser pianista, não te esqueças.


by knuthaug

dizia para o gato, vendo-o como forte guarda dos seus medos e o animal parecia escutar.

(cont.)

10/31/2005

a morte não tem história, só rictual.


by Emil Schildt

o homem mal o via, na neblina daquele outono triste. as vizinhas, poucas, que acompanharam a mãe, correram para a casa, a despojá-la, qual matilha de lobos.

- ela não vai levar nada para onde for e parentes não há. pode lá a rapariga pagar a casa!



não podia. mas não ficaria no orfanato do mosteiro. faltava-lhe apenas um ano para poder decidir da sua vida. decidiria já. não podia sequer imaginar-se nos corredores gelados entre mulheres de negro. rezando, por obrigação, sem sequer entender o que dizia.

e ainda que naquele momento os sonhos de jovem estivessem de luto, a consciência não a perdera ainda.

Spirospar

disse não ao convite do homem para o seguir. não se dava conta bem do que sentia. vazio? seria isso?

a raiva entrou-lhe no sangue ao ver o que restara da casa. apenas a cama pobre e o gato esquecido porque sem valor. tinham levado tudo, como corvos. não teve forças para odiar.

Briefly Connected

pegou o animal que parecia implorar que o não abandonasse. pô-lo na mochila sobre a pouca roupa que era a sua. foi ao esconderijo buscar o dinheiro que a mãe amealhara sabe-se lá como e partiu. sem rumo. era urgente sair antes da chegada das freiras. isso era, de momento, tudo quanto sabia.

foi-se por um caminho solitário até que os sonhos voltassem a fluir.

al-farrob

(cont.)

10/29/2005

o tempo passa depressa.


Ewa Brzozowska

entre os pobres são curtas as infâncias. depressa se ouve dizer: acaba com isso! já não és uma criança. é pena que os sonhos maus não recebam a mesma informação.

também não se importava muito de crescer. os crescidos eram livres. não pediam autorização a ninguém para nada. faziam o que queriam, quando queriam.

aceite a notícia de não ser criança com alívio até, começou a ter sonhos para quando mulher. sonhar era a sua riqueza. nunca a perdeu de vista.

nunca? não. no dia em que a mãe, muito cansada, ficou na cama e não foi para o mercado, não sonhou. a mãe conseguiu adormecer mas já não teve força para despertar.

naturalmente, esse dia mudou a sua vida.


ligou para a única pessoa que conhecia, o homem que as visitava. ele veio. trouxe flores. ligou para a funerária. pagou tudo e ficou a olhá-la.

nunca vira flores em casa antes da mãe morrer. pensou isso e sorriu, com ironia.

- eu hei-de tê-las antes, muitas!

Gabor

- vou tomar um banho. vim sem passar por casa. se quiseres, depois jogamos cartas. vai ser uma noite longa de passar...

- não.

- como queiras. vai fazer café, então.

e não voltaram a falar até amanhecer.

suspended time

enroscou-se aos pés da cama da mãe, com muito medo de dormir, para não sonhar.


Eyes .third-plateau.org

(cont.)

10/28/2005

já sonhava em menina

disso lembra-se ainda. mas de início eram apenas sonhos pesados, difíceis pesadelos. acordava depois a tranpirar e triste. chorava baixo ou chamava alguém que nunca vinha.

havia uma mulher e uma árvore vazias. a mulher era disforme e nem a olhava. o corpo não tinha lógica, contorcido, com dentes destacados e era para ela que ali estava. ainda não esqueceu. não esqueceu nada. é muito nova para ter a sorte de poder esquecer.

nightmare deviantart.org

havia ainda o "olho de bicho" como ela lhe chamava. começava por fazer parte de um rosto até se aproximar tanto, que já só via a pigmentação do olho a fremir dentro da sua cabeça de criança.


deviantart.org

não, de nada serviria chamar. a mãe ia, madrugada ainda vender no mercado da cidade. era longe, saía noite. pai? o pai era um místério e ninguém falava dele.

havia só um homem, sempre o mesmo, que às vezes lá dormia e levava chocolates e beliscava a mãe. nesses dias o jantar era melhor. pouco falava mas, sorria-lhe sempre. outras vezes aparecia mas ficava pouco tempo.


Steven Daniel

quando ele chegava, deixavam que ela fosse para a rua, empoleirar-se onde queria, como os rapazes. gostava mais disso que dos chocolates. depois o homem voltava a sair e a mãe chamava-a para jantar.

assim passara a infância. entre a escola, a rua e a solidão dos sonhos pesadelo.

(cont.)

10/27/2005

breve intervalo

from Internet Ray-Tracing Competition -

10/26/2005

o homem olhou-a

como os lobos olham, como aprendeu.
beijaram-se então, cerrados já os olhos, porque tudo estava certo, no certo lugar.


Gabriel Rigon


era a manhã do início ou assim parecia.
mas a mulher desprendeu-se do abraço.

aonde vais? não me fujas de novo, por favor! eu errei mas busquei-te todo o tempo. e tu própria semeaste o anel e as penas de garça pelo caminho: querias que te encontrasse. aonde vais?

www.hostelalaska

a mulher entrou numa cabana, que ele nem tinha visto no escuro da subida e saiu dela apressada, trazendo algo nos braços. a luz era pouca ainda.

estendeu-lhe o que carregava com carinho.

toma, foi por ele que vim. não seria complecta se o não tivesse. se não quiseres eu e ele viveremos aqui.

sorria com orgulho de fêmea conseguida.

o homem, viu no colo um filho. seu! inundou-o um sentimento forte, inédito. sentiu-se rei daquele mundo em volta, e amou-o desde o instante em que o sentiu.

john running

e por fim, a montanha dourou-se com o sol.

alan and sandy carey


parecia primavera. havia paz no mundo a essa hora. nem os lobos se ouviam. só o murmúrio da água do rio, fertilizando tudo à sua volta.

como um qualquer deus quis e, conseguiu.

rio Walyunga

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Fim do conto "Um Homem o Rio e os Lobos" dedicado a

Maria de São Pedro

quando um pássaro canta já ele se despiu

e mergulhou no quase gelado da água matinal.


H.C. Mueller

de véspera caíra no sono como pedra num poço.
despertou leve, quase feliz. correria à nascente. sentia-se como adão em paraíso. a natureza agreste, de altitude talvez se impusesse ao seu fardo de civilizado. fosse pelo que fosse, era livre e homem o que se sentia
.


deixou para trás a mochila e tudo o mais, subiu a correr os metros que faltavam e por fim chegou à nascente almejada.


Mike Wolf

do outro lado um pouco mais abaixo, uma mulher. está sentada numa rocha. como se fizesse parte da paisagem . o coração do homem alvoroça. bate arritmado, como o de uma dolescente na primeira paixão.

Andreas Feininger

não pode ser! seria bom demais...
meu amor!?

a mulher olha-o, ergue-se e por fim, a manhã decide despertar.

10/25/2005

mais que vendo onde pisava

seguia ouvindo o som do rio. vários cansaços o fizeram atirar a mochila para as rochas próximas e o corpo para um tufo de erva, em simultâneo. era início de noite. conseguira.

faltam uns metros apenas para a gruta da nascente. faz muito tempo que aqui não vinha. sei, sinto que devia ter vindo ainda antes de a procurar no mar e... noutras mulheres.

mas tenho de parar de pensar, tentar dormir. não sei o que encontrarei ao primeiro raio de sol? nada talvez...

teve ainda força para se lavar na água fria que corria imperturbável e intemporal, como sempre correra, antes de se deixar tombar na terra e adormecer.



stallman.org

a lua cheia erguia-se. os lobos cantavam as suas canções místicas em uníssono. nem isso o perturbou. dormia como quem cumprira uma missão fosse ela qual fosse: profundamente, desde há muito tempo.



acima, pouco acima, uma figura dobrada sobre a água parecia realizar, como os lobos, um rictual, contemplando o reflexo da lua na límpidez do rio.


o homem não poderia tê-la visto ao chegar. tê-lo-ia ela ouvido? não parecia, de tão concentrada num dobrar, quase triste, sobre a corrente.


lua de lobos é uma lua difícil para adormecer.