10/31/2005

a morte não tem história, só rictual.


by Emil Schildt

o homem mal o via, na neblina daquele outono triste. as vizinhas, poucas, que acompanharam a mãe, correram para a casa, a despojá-la, qual matilha de lobos.

- ela não vai levar nada para onde for e parentes não há. pode lá a rapariga pagar a casa!



não podia. mas não ficaria no orfanato do mosteiro. faltava-lhe apenas um ano para poder decidir da sua vida. decidiria já. não podia sequer imaginar-se nos corredores gelados entre mulheres de negro. rezando, por obrigação, sem sequer entender o que dizia.

e ainda que naquele momento os sonhos de jovem estivessem de luto, a consciência não a perdera ainda.

Spirospar

disse não ao convite do homem para o seguir. não se dava conta bem do que sentia. vazio? seria isso?

a raiva entrou-lhe no sangue ao ver o que restara da casa. apenas a cama pobre e o gato esquecido porque sem valor. tinham levado tudo, como corvos. não teve forças para odiar.

Briefly Connected

pegou o animal que parecia implorar que o não abandonasse. pô-lo na mochila sobre a pouca roupa que era a sua. foi ao esconderijo buscar o dinheiro que a mãe amealhara sabe-se lá como e partiu. sem rumo. era urgente sair antes da chegada das freiras. isso era, de momento, tudo quanto sabia.

foi-se por um caminho solitário até que os sonhos voltassem a fluir.

al-farrob

(cont.)

10/29/2005

o tempo passa depressa.


Ewa Brzozowska

entre os pobres são curtas as infâncias. depressa se ouve dizer: acaba com isso! já não és uma criança. é pena que os sonhos maus não recebam a mesma informação.

também não se importava muito de crescer. os crescidos eram livres. não pediam autorização a ninguém para nada. faziam o que queriam, quando queriam.

aceite a notícia de não ser criança com alívio até, começou a ter sonhos para quando mulher. sonhar era a sua riqueza. nunca a perdeu de vista.

nunca? não. no dia em que a mãe, muito cansada, ficou na cama e não foi para o mercado, não sonhou. a mãe conseguiu adormecer mas já não teve força para despertar.

naturalmente, esse dia mudou a sua vida.


ligou para a única pessoa que conhecia, o homem que as visitava. ele veio. trouxe flores. ligou para a funerária. pagou tudo e ficou a olhá-la.

nunca vira flores em casa antes da mãe morrer. pensou isso e sorriu, com ironia.

- eu hei-de tê-las antes, muitas!

Gabor

- vou tomar um banho. vim sem passar por casa. se quiseres, depois jogamos cartas. vai ser uma noite longa de passar...

- não.

- como queiras. vai fazer café, então.

e não voltaram a falar até amanhecer.

suspended time

enroscou-se aos pés da cama da mãe, com muito medo de dormir, para não sonhar.


Eyes .third-plateau.org

(cont.)

10/28/2005

já sonhava em menina

disso lembra-se ainda. mas de início eram apenas sonhos pesados, difíceis pesadelos. acordava depois a tranpirar e triste. chorava baixo ou chamava alguém que nunca vinha.

havia uma mulher e uma árvore vazias. a mulher era disforme e nem a olhava. o corpo não tinha lógica, contorcido, com dentes destacados e era para ela que ali estava. ainda não esqueceu. não esqueceu nada. é muito nova para ter a sorte de poder esquecer.

nightmare deviantart.org

havia ainda o "olho de bicho" como ela lhe chamava. começava por fazer parte de um rosto até se aproximar tanto, que já só via a pigmentação do olho a fremir dentro da sua cabeça de criança.


deviantart.org

não, de nada serviria chamar. a mãe ia, madrugada ainda vender no mercado da cidade. era longe, saía noite. pai? o pai era um místério e ninguém falava dele.

havia só um homem, sempre o mesmo, que às vezes lá dormia e levava chocolates e beliscava a mãe. nesses dias o jantar era melhor. pouco falava mas, sorria-lhe sempre. outras vezes aparecia mas ficava pouco tempo.


Steven Daniel

quando ele chegava, deixavam que ela fosse para a rua, empoleirar-se onde queria, como os rapazes. gostava mais disso que dos chocolates. depois o homem voltava a sair e a mãe chamava-a para jantar.

assim passara a infância. entre a escola, a rua e a solidão dos sonhos pesadelo.

(cont.)

10/27/2005

breve intervalo

from Internet Ray-Tracing Competition -

10/26/2005

o homem olhou-a

como os lobos olham, como aprendeu.
beijaram-se então, cerrados já os olhos, porque tudo estava certo, no certo lugar.


Gabriel Rigon


era a manhã do início ou assim parecia.
mas a mulher desprendeu-se do abraço.

aonde vais? não me fujas de novo, por favor! eu errei mas busquei-te todo o tempo. e tu própria semeaste o anel e as penas de garça pelo caminho: querias que te encontrasse. aonde vais?

www.hostelalaska

a mulher entrou numa cabana, que ele nem tinha visto no escuro da subida e saiu dela apressada, trazendo algo nos braços. a luz era pouca ainda.

estendeu-lhe o que carregava com carinho.

toma, foi por ele que vim. não seria complecta se o não tivesse. se não quiseres eu e ele viveremos aqui.

sorria com orgulho de fêmea conseguida.

o homem, viu no colo um filho. seu! inundou-o um sentimento forte, inédito. sentiu-se rei daquele mundo em volta, e amou-o desde o instante em que o sentiu.

john running

e por fim, a montanha dourou-se com o sol.

alan and sandy carey


parecia primavera. havia paz no mundo a essa hora. nem os lobos se ouviam. só o murmúrio da água do rio, fertilizando tudo à sua volta.

como um qualquer deus quis e, conseguiu.

rio Walyunga

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Fim do conto "Um Homem o Rio e os Lobos" dedicado a

Maria de São Pedro

quando um pássaro canta já ele se despiu

e mergulhou no quase gelado da água matinal.


H.C. Mueller

de véspera caíra no sono como pedra num poço.
despertou leve, quase feliz. correria à nascente. sentia-se como adão em paraíso. a natureza agreste, de altitude talvez se impusesse ao seu fardo de civilizado. fosse pelo que fosse, era livre e homem o que se sentia
.


deixou para trás a mochila e tudo o mais, subiu a correr os metros que faltavam e por fim chegou à nascente almejada.


Mike Wolf

do outro lado um pouco mais abaixo, uma mulher. está sentada numa rocha. como se fizesse parte da paisagem . o coração do homem alvoroça. bate arritmado, como o de uma dolescente na primeira paixão.

Andreas Feininger

não pode ser! seria bom demais...
meu amor!?

a mulher olha-o, ergue-se e por fim, a manhã decide despertar.

10/25/2005

mais que vendo onde pisava

seguia ouvindo o som do rio. vários cansaços o fizeram atirar a mochila para as rochas próximas e o corpo para um tufo de erva, em simultâneo. era início de noite. conseguira.

faltam uns metros apenas para a gruta da nascente. faz muito tempo que aqui não vinha. sei, sinto que devia ter vindo ainda antes de a procurar no mar e... noutras mulheres.

mas tenho de parar de pensar, tentar dormir. não sei o que encontrarei ao primeiro raio de sol? nada talvez...

teve ainda força para se lavar na água fria que corria imperturbável e intemporal, como sempre correra, antes de se deixar tombar na terra e adormecer.



stallman.org

a lua cheia erguia-se. os lobos cantavam as suas canções místicas em uníssono. nem isso o perturbou. dormia como quem cumprira uma missão fosse ela qual fosse: profundamente, desde há muito tempo.



acima, pouco acima, uma figura dobrada sobre a água parecia realizar, como os lobos, um rictual, contemplando o reflexo da lua na límpidez do rio.


o homem não poderia tê-la visto ao chegar. tê-lo-ia ela ouvido? não parecia, de tão concentrada num dobrar, quase triste, sobre a corrente.


lua de lobos é uma lua difícil para adormecer.


10/24/2005

seguia firme, apressado quanto podia.

na mira já só tinha a fonte do rio, o primeiro brotar. cumpria um destino sem o conhecer. não será sempre assim?

subitamente um uivo diferente, como um choro, fê-lo parar de novo e tentar ver de onde vinha o gemido.


at www.mccsc.edu


um filhote de lobo! tão pequenino! que fazes tu aqui? estás tão perdido quanto uma criança sem mãe. a tua vai voltar, verás, deve estar perto. não ouvi caçadores por aqui, não corres perigo.

o animal pareceu entendê-lo. ficou calmo a fixá-lo e o homem comoveu-se, como os homens fazem quando sabem olhar.

continuou montanha acima mas mais devagar, pensando e murmurando:

tu querias um filho. eu nunca quis. era tão mais fácil assim ter-te para mim...
falaste disso apenas uma vez. depois escutaste o meu silêncio frio e foste sentar-te em cima de um móvel, olhando o gato que brincava no chão. marcou-me a tua tristeza mas não cedi. assim te fui perdendo?

erickellerman

agora falta pouco para chegar. que espero eu da nascente? se ao menos conseguisse entender o que me impele a não parar de subir...

hei-de dormir no topo já, antes não paro. há neblina e a lua encheu. será lua de lobos esta noite. uma lua difícil para dormir sem ti.


10/22/2005

cada vez mais pesado o caminhar

mais denso o pensamento. mais próxima a nascente.

falta a tua nudez de virgem, na paisagem, como da primeira vez que te encontrei. sim de virgem, era assim que te via. fazias parte do mundo e ele de ti mas sem te maculares. como será que o conseguias?



janladage

dobra-se para olhar, baixa-se depois vergado pelo peso da mochila ou da sua própria história.

uma pena. vou guardá-la para ti. era o que tu farias. será de garça? aqui tão alto? não. tu saberás assim que olhares a pena e irás a correr achar-lhe um ninho na cabana da lagoa. sim irás, porque tu és aquela casa, a nossa vida. tu terás de voltar.


ao baixar-se, encontrou mais do que esperava recolher. viu algo seu. inconfundivelmente seu.

o meu anel! o anel que perdi faz quase um ano e nem tu conseguiste encontraste. como pode ter vindo aqui parar?

wolf menssolid

é um sinal. tem de ser um sinal!

ergueu-se e tão rapidamente quanto poude, recomeçou a subida para a nascente do rio.

10/21/2005

depois do grito, o alívio.

a chuva como se a tivesse chamado recomeçou. o homem continuou pelos trilhos cada vez mais íngremes a procura da nascente do rio.

skyandsummit

as memórias continuavam a inundá-lo cada vez mais nítidas, mas serenas agora. era como se ao gritar tivesse libertado toda a animalidade recalcada desde que nascera.

dizem que cansaste de esperar e foste para longe, para o mar.

tínhamos combinado encontro na estalagem para me poupar o tempo da vila à cabana. tu esperaste e eu não apareci. esqueci amor. esqueci de ti. e como foi isso possível nem eu sei.


gabriele rigon

cumprimentaste quem te conhecia, saíste para a rua sem dizer mais que:

- vou para onde houver água. água pura.

e não voltaste mais.

gabriele rigon

mas no mar há turistas e há o sal. a água do mar não é igual à que há nos rios. pura é aqui. o mar não. não era o teu caminho. não podia.

eu tenho de encontrar-te, sei agora.

10/20/2005

a respiração ofegante

as pernas parecem pesar mais, mas sobe sempre.

raiva. raiva de mim. civilizado? - tolo! não soube sequer exprimir o que senti quando te foste embora. nada. cerrei os punhos por alguns minutos e foi tudo.

eles, os lobos, têm expressões fortes. batem-se pelo essencial. tu eras o meu essencial e eu não me bati por ti.



mesmo quando estavas comigo, estarias ainda?

não sei. não olhei bem. olhei de lado. não queria discussões, confrontos. queria só ser aceite. queria que tu fosses mansa como um cordeiro de rebanho e eras lobo. eu não vi!

christian coigny

tivesse eu enfrentado o teu olhar ferino e estarias aqui? quem pode saber, agora que partiste?


sabem os lobos. começo a ler-lhes a linguagem, tão diferente da que optei por usar. indiferente a minha. coisas de gente, dir-se-á, mas é? nascemos nós assim tão sem sangue nas veias, tão dormentes de alma?

Christian Coigny

ou foram-nos moldando as regras que fizemos?

é mais isso por certo. basta olhar quando tocam no que para o ser humano parece essencial, território e dinheiro. então sim: temos garras, dominamos, humilhamos até.

R. D. Lawrence

de novo os lobos, os teus lobos, sabem mais do que eu. tal como tu dizias, olham nos olhos, enfrentam-se, conhecem-se. amam ou odeiam. defendem mesmo sem atacar.

eu só ouvia os uivos pela noite e lamentava ouvi-los. tu aprendias com eles a viver mais com o que é a verdade de cada ser que nasceu sobre a terra.

hoje sou eu quem desejava exprirmir-se como um lobo. quem queria uivar de frustração e dor.

ó meu amor perdido! ó meu amor!


R. D. Lawrence

o grito-uivo ecoa na montanha, desce ao vale, silencia as aves, mas o rio, imperturbável, continua a correr.


colin aiken

10/19/2005

tinha chovido pela noite

as gotas de água ainda brincavam com o sol nas folhas de outono. os animais chapinhavam em poças. ele nem a chuva sentira.

Caleb John Clark

olhava agora a frescura trazida e a animação que o outono apesar de sereno, tem consigo. coisas de morte e renascer.

os lobos teriam saído para beber. deles só viu o rasto de fartura ainda. o inverno se encarregaria de endurecer a vida para a matilha.

os corvos tinham agora o seu quinhão.

nada se perde na natureza nada. só nós desperdiçamos. só os homens.

Caspar David Friedrich


uma das frases da mulher. sentia bem como ela o acompanhava na subida. como se fosse ela a indicar-lhe os trilhos. ela a guiá-lo. ela a chamá-lo.

esperança tola. tu a chamares? tu de quem fui as sobras, o desperdício da fartura.

raios! estou com pena de mim. não gosto disso, além de que é mentira. há tempo já que o hábito vencera a paixão. não dei por isso. acostumei-me só.


Bolk Paul

foi até fácil: o trabalho, os amigos, o tempo a meu favor e tu esperavas. tu esperavas-me sempre e a sorrir.

não penso mais em ti. não quero. tantos corpos passaram já por mim depois do teu!

quantas almas estarão como a minha, difusas? diluídas na ilusão que transmiti até à hora de, por não seres tu, partir sem as olhar sequer?

eu fiz sofrer! vinguei-me! mas não queria. queria-te e queria a paz que me oferecias sempre.

Arlene Hand Sreven Gelberg

tinhas mãos de pluma. que planta que não eu, acaricias hoje?

tenho ciúmes das flores qure te cercarem, dos esquilos que alimentares como fazias. tenho ciúmes do mar aonde dizem que foste, aonde nadas.


Eolake Stobblehouse,

eu sou o ciúme de ti!

10/18/2005

o homem estudava os lobos

river by Scott Yost

sem se dar conta sequer de que o fazia. os lobos estudavam o homem desde início.

o uivo não é como o ladrar. o uivo une. é um toque a unir, a recolher ou até a fu
estrategicamente.

de início ouviam-se mais uivos.

à medida que a subida se aproximava do local, da gruta, os lobos curiosamente, uivavavm menos .


e para que a fêmea pudesse descansar um lobo ficava meio dormente meio atento até amanhecer.

devia eu tê-lo feito, devia eu ter uivado a chamar-te. num uivo que ecoasse no mundo e tu ouvisses onde quer que estivesses e corresses para mim.

aquele lobo olha-me como se esperasse que eu o siga. que quer aqui tão perto? diz! tu sabias ouvi-los. tu escutavas. antes de ficares triste, não havia nada na montanha que te fosse estranho. tu sabias.

a fonte. a fonte, a nascente que procuro, eras já tu?

by Christian Coigny