11/25/2005

THE END.


Sem qualquer intenção de regressar aos blogs, despeço-me de todos com carinho.

O mundo está sempre em mudança e o meu mundo não é nisso excepção.

Continuarei, sempre que possa, a visitar quem costumava.

Para escrever, se me fizer muita falta mesmo, voltarei aos blocos quadriculados de sempre.

Até breve.

Madalena.

11/23/2005

racionalizando

by Inge Weidmann

Do not grieve. Misfortunes will happen to the wisest and best of men. Death will come, always out of season. It is the command of the Great Spirit, and all nations and people must obey. What is past and what cannot be prevented should not be grieved for ... Misfortunes do not flourish particularly in our lives - they grow everywhere.


Big Elk - Omaha Chief

Até já Isabel. Obrigada por teres existido.

Isabel de Castro - Actriz

Vais encontrar o Nuno primeiro que eu. Como ele te admirava! Quero tanto acreditar que vai ser como eles dizem.

Foi uma honra e um prazer enorme conhecer-te e aprender contigo.

Madalena Pestana



porque me foi oferecido

e por ainda ser novembro e estas serem, de facto, as minhas cores. porque quero escrever mas ainda é cedo e porque a vida nao é negra sempre:


aqui fica, com um obrigado ao

11/22/2005

um silêncio

o gato olha atento o movimento novo.

era muita a agitação na casa estagnada até aí.

o mordomo dera pela falta de sara e conseguira da pequena empregada, a informação do que buscava ela ao partir.


at domaine-de-loisy

ao saber isso, a senhora sorriu. destinou o jantar. o mordomo não entendeu, pela primeira vez, a ordem recebida.

- ouviste bem, é para três, o jantar.
vem celebrar comigo, serve um vinho bom . esta noite, o piano vai voltar a tocar.

Steve Tregeagle

*

Fim do conto : A quatro mãos

a porta já aberta. e descrever o abraço?

francis bake


quem sabe alguma coisa do intemporal, do para lá dos corpos e das almas, da inversão da vida, do vê-la até pelo avesso, do redemoínho de ramo de árvore ao vento, a encontrar de novo o tronco mãe?

inenarrável pois o reencontro. silencioso, intenso, casto até. como se resultasse de espera milenar.

- para onde fugiste tu, porquê?

- foste tu quem partiu sem avisar e ... havia a igreja pelo meio.

- saí a tempo de me libertar de votos feitos. o meu voto eras tu.

- não o disseste.

- não o adivinhaste?

- ó meu amor, não sei!

- e como estás aqui?

- trabalho na casa grande. no primeiro dia ouvi tocar... hoje não resisti, vim procurar o artista.

- desde que voltei à cidade e não te vi, saí dessa casa e a minha mãe ficou triste e fechou-se também.
se eu soubesse...


mais palavras não houve. apenas teclas, teclas tocadas a quatro mãos imparáveis, ansiosas de produzir a mais maravilhosa música do mundo.

Mik Hartmann

- ela não veio por mim, não me sabia aqui.

sentou-se no soalho de madeira brilhante. sim , fizera ele a casa com alguma ajuda. as suas mãos sabiam mais do que tocar teclas, roubando sons a cordas.

Jonathan Cox

enquanto isso, lá fora , sara espreitou a janela e viu o que entendeu como sinal: um gato e um piano.

Dave Beedon

o seu gato arranhava-lhe os pés, pedindo que saísse da posição de estátua em que ficara. mas não foi ela quem saiu, foi um vento forte, uma interior rajada que a atirou pelo espaço, ave em voo, fazendo-a flutuar o que faltava vencer até à casa, onde o que fora um amor, a aguardava

by Victor Ivanovski

11/21/2005

sara foi acometida por uma energia

panoptika


estranha a si, que a envolvia e a puxava, como os tentáculos de um polvo fazem, provavelmente. foi pelo menos nisso que pensou.

- é da trovoada , tem de ser. vê-se bem já nas cores do céu, que se aproxima uma.

nenhum ser inanimado, como um piano, pode desenvolver a força que me atrai. sei disso. porque será então que tremo. de que é que tenho medo, se até é boa e envolvente a sensação?

Marc Atkins

a árvore frente à casa era o porto seguro que restava, para resistir à tentação de seguir a correr na direcção do que a chamava. parte de si recebia da árvore a força necessária para escolher, a outra parte corria já na direcção do chamado inaudível.

foto ognid - Catedra l


o céu avermelhara com as cores de uma paixão que o ar trazia e sara reconhecia por tê-la sentido, muito nova ainda, uma vez só.

não voltara a ver o homem que a desencadeara. um dia despertou e ele tinha deixado a paróquia onde ajudava o padre. não voltaria. sara refugiou-se no piano e não voltou a olhar rapaz nenhum.

- não, não pode ser. enlouqueci.

11/20/2005

- quem se atreveu a atrevessar o rio, em sofrimento

de ave que perde as penas ao não poder voar?

kadian

o homem olhou através da janela e o estremecimento passou a uma comoção inesperada. não queria, melhor não podia acreditar no que a vida, imperturbável fábrica de destinos. tinha voltado a pôr no seu percurso: a menina-mulher.

Marc Atkins


os olhos pejados de ternura recusavam desviar-se da aparição.


Marc Atkins

- não, não pode ser ela. é a minha fantasia a recriá-la. é já o pôr de sol que se aproxima. são as manchas das folhas de árvore sobre o rosto.

ela era quase uma menina quando a ouvi tocar...que poderia fazer hoje aqui, neste quase fim de mundo, onde só eu e a minha mãe vivemos para além dos pastores?

adam-burton

enquanto isso, sara olhava a casa, temente da reacção do dono se, sem mais nem menos, lhe invadisse a privacidade e o óbvio exílio.

mas tinha de encontar uma saída. parou para pensar numa abordagem, um pretexto que a levasse a bater à porta e não perguntar de imediacto:

- é você o pianista?

a frase não cairia nada bem como apresentação.

11/18/2005

aberta a jaula como piano aberto

sara passou a dedilhar em cada corda os sons da vida.


Edu - ejhuang


o primeiro pastor que encontrou, perguntou por alguma casa próxima. disse-lhe o homem:

- só conheço a do artista, por aqui além de pastores não mora mais ninguém.

- que arte é a dele?

- ao que dizem, todas, vem daí a alcunha. pinta, toca, até a própria casa construiu.

- e vive há muito tempo por aqui?

- não sei o tempo exacto, mas a casa foi feita depois da casa grande, isso posso eu garantir, ainda ajudei a trazer o material. pagavam bem...
mas procura-o para quê? desculpe o abuso?

- ele afina pianos? sabe dizer-me isso?

- só o da casa grande. de resto vai dar aulas de música à cidade, dois dias por semana. só nesses dias ele sai.
é estranho. homem ainda novo mas de semblante triste e nada dado a falar com ninguém. vive escondido como os lobos vivem, com medo de um qualquer caçador.


kenket.com


- desculpe-se, já falei demais.

e foi-se o pastor.

sara ficou mais triste. parecia distanciar-se a sua esperança tão fisicamente próxima, de voltar a tocar.

- 'vive escondido como os lobos vivem', disse ele... porque iria querer sequer abrir-me a porta?

nesse momento e não longe dali, um homem estremeceu, como acometido por dor acutilante. sem saber vinda de onde, sem entender sequer.


by Victor Ivanovski.

11/16/2005

alguém lera para a dona da casa grande antes de sara

Marlon Weston

pois, tal como o piano que nunca tocava, os objectos e a história daquela casa estavam emoldurados e suspensos no tempo.

sara sabia não querer fazer parte da moldura. tinha de ouvir a música das cores de outono, dos riachos, da chuva e uma tarde, para espanto da filha do jardineiro, saiu portão afora sem avisar ninguém.

pascal renoux

- sara, que digo se o mordomo te chama? não podemos sair assim, ele não gosta...

- também não gosto dele e aguento. diz-lhe que não me viste. depois eu própria responderei ao que quiser.

lá fora respirou fundo e correu solta. pisava com prazer as folhas mortas enquanto parecia renascer.


jody fenton

- escada não pisada como teclas paradas. há que subi-la. nalgum canto vive o pianista que ouvi no primeiro dia.

que se dane o segredo seja ele qual for!

eu preciso encontrá-lo, tenho urgência em voltar a tocar.

subiu a escada para encontrar a vida, que parecida adormecida, na casa que lhe ficava para trás.

11/14/2005

calou-se por fim sacudida pelo próprio grito.

tanta memória a tinha assombrado pelo som do piano.

aprendera a tocar na cidade. muito contra a vontade da mãe. com uma professora que fora concertista ou dizia ter sido.
depois ia à igreja só para entrar na sacristia e usar o piano. o padre não tocava e lá ia deixando para a poder ouvir. assim fora feliz de modesta maneira.

by Victor Ivanovski.

mas nunca nada se parecera aos sons daquele dia.

deixariam que usasse o piano?

absorta, mal deu por baterem na porta. disse um sim automático e pasmou. mordomos, só os vira nos filmes e nunca por ali. no entanto estava certa de que o homem que acabara de entrar pelo porte e traje, o era concerteza

- sara, decidiu a senhora contratar-te para que lhe faças companhia. lerás para ela e sairás sempre que se sinta capaz de passear.

de uma coisa quero advertir-te já, não lhe faças perguntas pessoais, não as tolera.

- e a si, posso?

- diz.

- poderei usar, de vez em quando, o piano?

- está fora de questão. ninguém o toca. ninguém. há muito tempo...


saiu. sara não sabia o que sentir. raiva, mágoa, frustração ou tudo isso?

at buckinghamgate.com

- raio de boneco articulado! eu hei-de conseguir!

a jovem fechou os olhos

aos primeiros acordes estranhou a qualidade musical do afinador de pianos. a música subia com uma alma própria e sara elevava-se com ela, inebriada.

quando se apercebeu de que esquecera a futura patroa, abriu os olhos, mas a senhora já não estava no quarto. preocupou-se. correu à escada para ver se a via. nada. já nem o piano se ouvia. um silêncio de pedra numa casa de pedra. só lá fora parecia ainda haver vida.

steve garfield.


em casa da mãe havia no sótão um piano estragado. muito pequena ainda, escapava-se para ficar a olhá-lo apenas. a mãe nunca gostara que o fizesse e um dia fechou à chave o sótão e proibiu que fizesse mais perguntas sobre o assunto. nunca entendeu aquele comportamento, nem agora, crescida já. o entendia.

Will Agar

- tinhas tantos mistérios porquê, mãe? o piano, o meu pai, o homem que ia e vinha mas com quem não vivias, a cultura que tinhas apesar do trabalho tão humilde...

segredos. só segredos!
e levaste-os contigo ao deixar-me só. abandonaste-me sem história. não perdoo! tenho raiva aos teus silêncios que me cercaram a vida, que eu queria tão cheia de sons!


pascal renoux


e pela primeira vez depois da morte da mãe, soltou um grito de dor. grito de animal ferido. grito de entranhas rasgadas.

tanta impotência e agora, mais silêncio numa casa estranha, onde ninguém parecia querer saber de onde ou porque viera ela, sequer.

11/10/2005

despertou numa cama estranha. insegura. confusa.

josé marafona

soube depois que a tinham encontrado sem sentidos. na terra. o gato miando junto dela. fora aliás o miar do gato a alertar para o lugar o jardineiro que passava.
a senhora ordenou que a levassem para a casa grande e a alimentasssem depois de um banho quente e, assim fizeram.

comeu em silêncio, como quem pecasse por perder o controle da mente e demonstrar fraqueza no lugar onde queria causar boa impressão.

depois esperou.

começava a conhecer o significado da espera. é uma angústia quase, que não morre, porque tem uma espécie de fé agarrada como uma trela a uma coleira. como uma nora ao animal que a puxa.

por fim viu no espelho do quarto o rosto calmo da dona da casa e respirou, como quem tivesse sustido o fôlego por muito tempo.

Schildt

- bom dia.como te chamas, rapariga?

- sara, senhora.

- sara...

pareceu-lhe ver a velha senhora estremecer. seria por certo ilusão dos seus olhos cansados do pouco sono, do sofrimento da véspera. seria...

ouviu acordes de uma piano e levantou-se quase de um salto, despertando a provável patroa do torpor em que parecia ter entrado.

- que foi? sentes-te mal?

- não. desculpe, é um piano não é?

- é sim, estão a afiná-lo. gostas de pianos?

- tanto! daria a vida por um.

david

- sara...

ficou a idosa senhora murmurando, como um eco.

11/09/2005

por hoje ser... hoje


vinte e quatro horas de intervalo.

11/08/2005

é visível a cerca de entrada da casa grande.


Donna Sherwood

mas ela, Sara, não tem pressa agora. quer respirar todos os sons novos, o ar lavado.

não referira o nome? é Sara sim. era o nome da avó, a mãe do pai. o pai mistério, o pai escondido, tapado por invernos de folhas apodrecidas na memória dos que o quiseram ignorado de vez.

mas Sara não pensa em nada. pisa folhas e sons, os sons que cada cor tem no seu espírito, na sua carne, no seu sangue. são os sons do outono.

James Kay


desce em busca do riacho , molha-se em água benta de chuva. já não pisa as folhas, elas dançam no ar como ela dança.

pascal renoux.


súbito a vertigem. o céu muda de tom. esbatem-se as formas e a rapariga cai no chão, molhado ainda.

tony howell.

11/07/2005

há um rio por perto

mas ontem nem o escutei correr, talvez um riacho a que a chuva da noite deu caudal maior. é tão bom ter um rio junto de casa! que sorte têm os ricos, podem escolher onde morar.
ter esta voz de água a entrar nos ouvidos logo ao despertar... feliz de mim se conseguir emprego aqui.


philippe.poli

deu consigo a sorrir, ou nem por isso deu, mas um sorriso inundou a manhã, já de si cheia da luz que brilhava na água, ainda gotejante das folhas das árvores.

Dave

não posso ir já para lá. para esta gente é madrugada ainda. haverá por aqui que comer? bagas há, já as vi. sei quais as venenosas, tudo o resto dá para comer, se os animais as comem...

as bagas mordiscou-as, arrepiando-se com a acidez, mas acabaram por saber-lhe a fruta requintada.


by kim tran

sentada no chão, escutando a água que corria, não conseguiu impedir que o sonho da noite lhe viesse à memória. não fora o sonho recorrente. não o olho de bicho, a que quase se acostumara.

foi diferente; uma raiz esbatida num chão de pele, em forma de rosto de homem, que parecia querer falar-lhe. a quem teriam cerrado a boca a impedi-lo mas, parecia ter nascido para falar-lhe, só. tinha a sensação, estranha, de ter visto algures um rosto assim.

se ao menos soubesse entender sonhos...

Wallpapers Skins

antes de adormecer

olhou a cor das folhas de outono que o vento atirara para o chão do quarto de pedras velhas. não podia ser pior que o que deixara para trás depois do saque. o gato arranjou o seu canto também, em posição de alerta.
a noite ameaçava chuva. ali se aconchegaram, até o sono lhes fechar os olhos. mas os sonhos...

fritz fabert

o despertar confirmou que chovera. ouvia-se ainda os pingos da chuva da noite a caírem dos ramos. ela sorriu. o som da chuva era música pura. o vento sobre as árvores criava sinfonias que ela, um dia, haveria de tocar.o gato no seu canto não estaria tão feliz. molhar-se não era festa para ele.

sobi.org

11/04/2005

uma flor no caminho. pensou na mãe.

L. Morgan

não iria voltar ao cemitério. nunca mais. preferia-a viva na memória. sem lápides nem cercas que a fechassem. foi buscar uma pedra para assinalar o lugar onde nascera, para a mãe, aquela flor. lá, voltaria.

era uma pedra branca, redonda quase, não a esqueceria .

reiniciou a caminhada. era ainda longe. não pensava em bater à casa grande noite dentro. perguntou qual o caminho a um ciclista que passou e saiu da estrada, em procura de lugar para dormir. estava muito cansada.

triste? não tinha tempo para sentir. tinha o futuro próximo com que se ocupar. e os sonhos no piano que um dia poderia tocar.


at .neara.org

uma casa de pedra! quem a teria feito? entrou. a história podia bem esperar. antes o pouco aconchego das folhas de outono e a pedra em volta, que o frio da noite que sentia já.

- se me deixarem estudar... se tiver tempo... posso aprender música. pago com o que ganhar...

a música vivia dentro do seu cérebro. brotava como água desde a manhã até o sono a vencer.

by Darren Levant

adormeceu enfim. há 24 horas não dormia, iluminava a noite, o olhar atento de óscar, o gato que um dia achara abandonado num jardim.
(cont.)

11/01/2005

que depressa ficam para trás

Larry Kanfer

os baloiços, a descontracção, quando a morte desce para a colheita e nos leva a árvore de apoio! também o verão ficara para trás.

nada na vida é estático. sabia isso a cada momento mais. crescia, sem saber, a cada passo dado.

- o dinheiro não pode durar muito. tenho de ir para bem longe da cidade ou terei de aturar o convento e sei eu lá que mais. não podem encontrar-me! arranjar um trabalho onde puder parar é o mais importante, no momento.

tenho de comer. desde ontem que o não faço e a andar a este ritmo começo a ficar tonta. aimda bem que é outono. com o calor. ainda estaria à saída do povoado.

parou num café de estrada onde a não conheciam e entrou.


Rob Ball

bebeu café com leite comeu pastéis e comprou água e pão para o caminho. tudo de uma forma apressada que fez estranhar o dono.

- estás com pressa? vais para a camioneta?

- vou. tenho de procurar trabalho na cidade mais próxima. sabe de alguma coisa?

- és maior de idade?

- olhe para mim. pareço-lhe criança? e se o fosse havia de querer trabalhar para comer?

- tens razão. dizem que na casa grande procuram pessoal. fica a uns quilómetros da paragem. terias de ir a pé. é gente rica. quase tudo mulheres. mas como é longe, pouca gente casada as quer servir.

- eu não sou esquisita, casada muito menos e tenho boas pernas para andar. obrigada. bom dia.

e saiu.

José Marafona

- a casa grande. assusta só o nome.

e pôs-se a imaginar, enquanto passava ao lado da paragem, para não ser apanhada no transporte público.

- vais ter de aprender a caçar, óscar! enquanto eu trabalho entre ratos e baratas, dormes tu. depois ficas de sentinela ou eu não durmo. tenho de ganhar para poder ser pianista, não te esqueças.


by knuthaug

dizia para o gato, vendo-o como forte guarda dos seus medos e o animal parecia escutar.

(cont.)